Faltam ações e sobram mortes na saúde

17/09/2012 10:34
Quando chegou no centro velatório Reunidas, Salete Aparecida Garzim Pinto precisou ser amparada pelos filhos e netos para conseguir subir as escadas. O problema não foi físico. Aos 67 anos, ela é uma mulher forte e saudável. Não há força, entretanto, que suporte a perda de um filho. Salete teve tremedeira e precisou ir para o Pronto Socorro quando soube da notícia. 
 
A idosa teve 10 filhos. Pensou que quando morresse, os dez se revezariam para carregar o caixão, seguindo a ordem natural das coisas. Às 14h de hoje, é ela quem vai enterrar um deles, no Cemitério do Redentor. 
 
O agricultor Aparecido Nelson Pinto Belíssimo, 43 anos, morreu na manhã de ontem, após esperar mais de 24 horas por  vaga de internação. Segundo a família, ele deu entrada na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Mary Dota por volta das 7h da manhã de anteontem com insuficiência respiratória e muitas dores no peito. Aparecido era cardíaco e, de acordo com relatos da mulher, das irmãs e dos filhos, que o acompanharam à unidade de saúde, precisava de atendimento intensivo o quanto antes. 
 
A irmã de criação, Nilza Belíssimo, 43, conta que a família foi avisada pelas enfermeiras da UPA de que Aparecido precisava de uma vaga de UTI. “Ele  já entrou na UPA com princípio de infarto”, afirma, inconformada. Familiares relatam que, na UPA, Aparecido passou por exames e, inclusive, precisou da ajuda de aparelhos para respirar. “Ele sentia muita dor no peito”, conta a viúva. 
 
Por volta das 10h30 da manhã de ontem, Aparecido morreu após entrar em um quadro de fibrilação auricular, que são contrações violentas da musculatura do coração. A família conta que no atestado de óbito a causa  é infarto fulminante. 
 
A viúva, Maria das Graças, 47, questionava enquanto amparava Salete, sem saber se enxugava as lágrimas da sogra ou as próprias. “Onde estão as autoridades?  Meu marido de volta ninguém vai trazer”, dizia.  
 
Aparecido e a mulher eram moradores da fazenda Faxinal, em Bauru, onde trabalhavam. Ele deixa três filhos de 19, 25 e 29 anos e cinco netos. 
 
Na porta do velório, as irmãs iam se aglomerando para esboçar a total insatisfação da família, que garantiu que irá registrar boletim de ocorrência ainda hoje.  “Como pode alguém morrer sem ter a chance de ir para um hospital?”, perguntava Margarida Pinto, 50. “O resumo de tudo isso é descaso”, concluía Márcia Lopes, 37. 
 
Caso de UTI?/  No início da tarde de ontem, a Secretaria de Saúde  informou que havia solicitado vaga de terapia intensiva (UTI) junto à Central Reguladora de Vagas do Estado. No final da tarde, entretanto,  enviou e-mail ao BOM DIA corrigindo a informação.
 
A secretaria diz que não foi pedida uma vaga de UTI porque o quadro do paciente era bom. A solicitação foi apenas de internação para tratamento. Em nota, a prefeitura  explica que o quadro do paciente evoluiu rápido, não havendo tempo para  solicitação de leito em  UTI. 
 
A Secretaria de Estado da Saúde confirmou que a UPA fez  uma solicitação de leito clínico cardiológico ao Hospital de Base e ao Hospital Estadual, para investigação diagnóstica. A secretaria diz ainda foi informada pela UPA de que o quadro do paciente era  controlado. 
 
De toda forma, para a família nem estado e nem prefeitura prestaram o serviço que deveriam. O município por não ter solicitado a vaga emergencial, que na opinião dos familiares era o necessário, e o estado por demorar em atender o pedido, ainda que para uma avaliação cardiológica. “Se ele tivesse ido para o hospital, eles teriam visto que era grave”, supõe  Nilza. 
 
Situação que se arrasta/  O agricultor foi o sexto paciente que morreu à espera de internação, seja por UTI, por cirurgia ou por leito comum, somente no segundo semestre deste ano. 
 
Os outros cinco casos aconteceram no Pronto Socorro Central e começaram a ser divulgados após a morte de Drielly Carla Alves de Brito, 22 anos, que deu entrada no PS no dia 26 de julho, com pedra na vesícula, teve seu quadro complicado e morreu após esperar três dias por um leito de internação cirúrgica. Um dia antes de Drielly, um idoso morreu nos corredores do PS e após os dois, outras três pessoas perderam a vida  à espera de vagas.  
 
Após tantos casos, as respostas das autoridades já se tornaram tão previsíveis que são quase adivinháveis. O estado é quem administra as vagas de internação, porém alega  que o município deve ter competência para prestar os atendimentos necessários à sobrevivência do paciente enquanto ele não é encaminhado ao hospital. Também informa  que custeia 777 vagas de internação para a região, além de repassar verba aos hospitais da cidade.  
 
O município é responsável por prestar o atendimento de emergência e, assim, diz não ter competência para resolver a situação. O secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, garante que a rede emergencial está melhor. “A UPA do Mary Dota não existia há alguns meses. Por lá eles estavam amparados para oferecer o atendimento emergencial necessário”. Explica e questiona. “Como vamos fazer alguma coisa se a questão das internações não está na nossa mão?”. 
 
À  população não resta escolha a não ser temer e, no caso dos religiosos, rezar. “Eu peço a Deus para que essas mortes parem de acontecer e a gente tenha uma Saúde que não dê vergonha”, nas palavras  soluçadas da viúva Maria. 
 
Espera por vagas
Até o final da tarde de ontem, 29 pacientes esperavam por vaga de internação em unidades de pronto atendimento de Bauru. 18 estavam no PS Central, 6 na UPA do Bela Vista e 5 na UPA do Mary Dota. Um dos pacientes está aguardando vaga desde o dia 9 deste mês, cinco dias atrás. 
 
6
É o número de pessoas que morreram à espera  de internação em menos de dois meses
 
Caso de polícia 
A morte de Drielly está sendo investigada pelo 3º Distrito Policial de Bauru. O delegado Fábio Mariotto está colhendo depoimentos de familiares e do corpo médico que prestou atendimento à jovem. No início desta semana, inclusive, o BOM DIA noticiou uma reclamação do delegado em relação à demora do município em entregar documentos solicitados. No dia seguinte à matéria, a situação foi resolvida. 
 
Famesp, enfim, será comunicada
Reunião entre entidade e governo estadual será  na semana que vem, mas sem presença da prefeitura
 
Cristiano Pavini
Colaboração para o BOM DIA
 
Há exatamente um mês, no dia 14 de agosto, representantes da prefeitura e do governo estadual se reuniram em São Paulo e deram o pontapé inicial para a municipalização dos serviços do Hospital de Base. Mas, passados 31 dias, houve poucos avanços de fato na situação.
 
Na ocasião, ficou decidido que o município assumiria o Base em uma gestão compartilhada com a Famesp (Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar). 
 
Entretanto, até agora a entidade não foi comunicada oficialmente. Na segunda-feira  retrasada (3), representantes da Famesp foram ao gabinete do secretário estadual de Saúde, Giovanni Guido Cerri, para tratar de assuntos refentes ao Hospital Estadual.   “Somente nessa reunião fomos sondados informalmente  para assumir o Base”, afirma Antônio Rugulo, vice-presidente da Famesp. 
 
Os representantes da instituição não deram nenhuma resposta por conta da ausência de uma proposta oficial. Por isso, a Secretaria Estadual de Saúde montou uma comissão para estudar as burocracias necessárias para a transição. 
 
Uma reunião para tratar do assunto está marcada para a próxima segunda-feira (17). Participarão  representantes do estado, entre eles a Diretora Regional de Saúde de Bauru, Doroti   Ferreira, e da Famesp. 
 
Curiosamente, a prefeitura não convidada. Ou melhor: sequer foi notificada oficialmente do agendamento da reunião.
 
O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) soube do encontro somente ao ser informado pelo BOM DIA. Já o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, diz que foi avisado da reunião apenas ontem pela manhã, mas de maneira informal. 
 
“Não chegou nenhuma notificação oficial”, diz Monti. Entretanto, o secretário prefere não polemizar e afirma que prefeitura e Estado continuam caminhando juntos para encontrar a melhor solução. “Não há nenhuma razão para desconfiança”, garante Monti.
 
Entretanto, o BOM DIA apurou que o governo estadual já tem uma espécie de “plano B”, com a Famesp gerenciando sozinha o Hospital de Base, sem a presença da prefeitura.
 
Questionada, a assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Saúde não se posicionou, e sequer confirmou a reunião da próxima semana.
 
Ao contrário da prefeitura, o promotor Luis Gabos Álvares, responsável pelo caso da AHB, foi notificado pelo Governo Estadual sobre a reunião do dia 17. Ele, aliás, diz estar otimista com esse encontro.
 
“Tenho contatos regulares com a Secretaria Estadual de Saúde e sei que o Base é  prioridade”, afirma o promotor. Ele acredita que a reunião trará boas notícias, tanto aos bauruenses quanto aos funcionários do Hospital de Base. 
 
solução?/ Além de boas, entretanto, seria interessante que as notícias também fossem sólidas. Até agora não há solução para os pontos  mais sensíveis do Base, como a dívida de R$ 150 milhões e o destino dos quase mil funcionários. 
 
Uma força tarefa com representantes da prefeitura e do estado foi criada e já se reuniu três vezes, a última delas ontem, mas sua atuação fica restrita aos serviços fornecidos pelo Base. Ou seja: foca na questão de saúde propriamente dita, e não as burocracias jurídicas.
 
Para estas, a prefeitura até o momento não foi chamada pelo estado para nenhuma reunião. “Já se passou um mês e não houve nenhum avanço de fato nesse sentido”, reclama  Rodrigo Agostinho.
 
O Seessb (Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos e Serviços de Saúde de Bauru) também está alheio às discussões. Tanto que a diretoria protocolou um pedido na Promotoria do Trabalho exigindo participar das reuniões. Entretanto, não recebeu nenhum comunicado do estado até agora.
 
Vale lembrar que a AHB (Associação Hospitalar de Bauru) deixará de existir no dia 31 de dezembro deste ano, e não há possibilidade jurídica do contrato ser prorrogado. 
 
Ou seja: os poderes públicos têm apenas 108 dias para encontrar uma solução. Nesse ritmo, será difícil apresentarem algo a tempo.
 
FONTE: BOM DIA